🛌 Eu não quero sair da cama.

A medicina vai salvar minha vida, mas não do jeito que você pensa.

Por vezes, me pego pensando nos motivos de eu querer tanto estudar Medicina. A última leva de médicos formados nas Uniesquinas de seus bairros dirão que escolheram isso por amor. Sabemos que o amor se refere ao dinheiro. E revirava meu estômago pensar que talvez eu também não estivesse fazendo isso única e exclusivamente pelo prazer de ajudar as pessoas, então me forcei a repetir esse motivo até que se tornasse verdade. Mas agora, quero ter uma conversa franca sobre isso e escrever os motivos que sempre escondi, a fim de olhar isso em terceira pessoa e então decidir se são dignos ou não de justificar minha escolha.

No último dia em que vi minha avó com vida, já sedada na cama de um hospital oncológico, aproveitei a hora em que fiquei sozinho com ela no quarto para pensar sobre o que aconteceu com ela. Na TV em frente à maca, era transmitida a missa que se realizava sempre às 18h na capela localizada no térreo do Hospital do Câncer de Muriaé. Minha avó era uma das pessoas mais religiosas que eu conheci. Comecei a questionar como Deus permitiu que uma pessoa tão querida quanto ela sofresse tanto com as dores que pulsavam de seu estômago e irradiavam até as extremidades, fazendo-a contorcer-se sobre a cama e ecoar gemidos terríveis pelos corredores da casa onde todos os anos comemorávamos o Natal, e cheguei à conclusão de que isso transcendia o meu entendimento e de que eu nunca saberia a resposta.

Eu não sei mais o que fazer. Eu quero chorar e chorar até que toda essa angústia saia pelos meus olhos. Gabriel, 31 de Maio de 2025.

Durante um mês, testemunhamos o milagre da melhora repentina que antecede a morte de uma pessoa que está sendo consumida pelo câncer. E então eu estava ali, ao lado dela, algumas horas antes de enterrar a pessoa que me fazia biscoitos de polvilho, me servia leite com café em uma caneca de esmalte e refazia as barras das minhas calças. Remoí o sentimento de que eu poderia ter feito mais. Administrado as doses certas de morfina nas horas certas, pesquisado e financiado o tratamento de drogas experimentais quando a morfina virou soro e já não fazia nada por ela.

E, pela primeira vez, aceitei que eu realmente queria ajudar as pessoas. Não pude fazer nada pela minha avó, mas talvez um dia eu possa fazer pela sua.

Something med school did not cover
Someone's daughter, someone's mother
Holds your hand through plastic now
Doc, I think she's crashing out
And some things you just can't speak about Taylor Swift, epiphany.

Agora vem o motivo menos nobre (que nesse momento faz com que eu apague esse parágrafo repetidas vezes, mas que vai sair): eu quero ser respeitado.

Durante toda a minha vida, eu nunca fui respeitado de verdade; nem pelos meus pais, nem pela minha família, nem pelas pessoas ao meu redor. Minha opinião e minha vontade nunca foram levadas em consideração por nenhuma dessas pessoas, e tenho medo de que minha vida inteira seja assim. Eu não quero mais ser o Gabriel amarrado na árvore pelas crianças com quem brincava na rua. O Gabriel que tinha de ajudar na lavoura porque um dia seria o patrão, sufocando com a poeira do café. O Gabriel voltando para casa aos berros, em uma caminhonete abarrotada de coisas, quando percebeu que havia escolhido a faculdade errada e foi obrigado a voltar para casa. O Gabriel preso entre o chefe e a pia no banheiro do trabalho.

Screaming anything he wants
Like: Look at me, because I exist Flatsound, I Exist I Exist I Exist.

Quero ser o “Dr. Gabriel” anotado no quadro de plantonistas na recepção de um hospital. O Gabriel que passa pela porta e para quem todos olham. O Gabriel que sabe curar as pessoas e é respeitado por isso. E tem mais um elefante nessa sala: me questiono se um dia minha conta bancária vai ser entupida por números e mais números à medida que troco meus dias por dinheiro. Dinheiro que mal terei tempo e vontade de gastar. Sei que as horas fora do hospital talvez sejam mais difíceis do que os dias dentro dele, e tenho lutado para entrar lá e não ter de passar o resto da minha vida aqui fora questionando tudo aquilo que eu poderia ser, sobre todas as pessoas que amo e que não me amam de volta. Perdê-lo vai ser insignificante. Me casar? Eu já nem vou ligar mais para isso. Ter filhos? Bem, que se dane o fato de ele não querer fazer isso comigo, de qualquer forma eu não terei tempo para criá-los mesmo.

Print de uma conversa com ele

No fim, acho que ser respeitado e trocar a vida aqui fora por plantões intermináveis já são motivos dignos o suficiente para que eu doe cada gota que me resta de sangue, suor e lágrimas por isso. O resto eu guardo para ter algo bonito a dizer no meu currículo da residência.