🛌 Eu não quero sair da cama.

Das vezes que ele some.

Quando notei a ausência dele, comecei a colocar tantos reis quanto podia contra a parede do tabuleiro. Mas bastava um lance desatento e eu logo caía em mates que nem sei de onde vinham. Cansei daquilo e senti fome pela primeira vez no dia. Então levanto e me corto uma, duas vezes com a faca da cozinha. Na terceira, já é quase de propósito. Duas horas depois, havia preparado uma ceia inteira, com entrada, prato principal e sobremesa, mas quando me sento para comer, tudo tem gosto amargo. Não era fome, era só enjoo mesmo.

Penso que talvez seja por isso que as pessoas fumam tanto. Então reviro tudo atrás de um cigarro, mas não encontro. Pego o All Star jogado no chão do quarto e saio andando aos pulos enquanto calço. Entro no boteco mais próximo e escolho o maço mais bonito. Já que vamos fazer isso, que seja algo performático, então. É uma caixinha de papel branco e vermelho, com a inscrição "Marlboro" em alto-relevo. Abaixo, em uma faixa amarela, lê-se: "Este produto causa câncer. Pare de fumar". Havia me esquecido do brinde, mas decido ignorar o aviso pois não aceitaria que alguém me dissesse para parar com algo que eu sequer havia começado. Abro a caixinha e coloco um deles entre os dentes, mas não o acendo.

Em casa, começa a saga de achar um isqueiro. Nada na cozinha — maldito seja o cooktop de indução. Avanço em direção ao meu armário e começo a jogar tudo para fora. Me demoro um pouco olhando o estojo que carregava no tempo de escola. Mas não tem um isqueiro ali... só canetinhas coloridas, adesivos de estrela, uma lapiseira de zero ponto sete milímetros e uma borracha que apagava os meus erros. Guardo essa no meu bolso, só para o caso de eu vir a errar de novo.

Vou para o quarto dos meus pais e encontro uma vela acesa em frente ao altar. Encaro a chama e me pergunto se Nossa Senhora se importaria de me fazer o favor. Sou revisitado por todas as representações de inferno com que já tive contato na vida e chego à conclusão de que ali há fogo o suficiente para acender tantos cigarros quanto eu quiser. Retiro o cigarro da boca e começo a encarar o fino cilindro amarelo e branco na ponta dos meus dedos. Penso que talvez eu nem vá gostar tanto assim disso. Então declino o acordo e resolvo deixar a santa quieta.

Escuto o iPhone tremer de alegria sobre a escrivaninha do quarto, acelero o passo, mas não era ele... só a operadora tentando me vender um plano superfaturado de internet e um bônus com vários minutos de ligação. Quem diabos faz ligação hoje em dia? Bom, os funcionários da operadora, pelo visto. Coloco a vitrola para girar, sem nem ao menos conferir a faixa:

Where I pace in my pen and my friends found friends who care
No one sees when you lose when you're playing solitaire. Taylor Swift, Dear Reader.

Isso não ajudou muito, então arrasto a agulha para fora do disco. Me jogo na cama e enfio a cabeça entre os travesseiros. Algum tempo depois, me dou conta de que meus pais já estão em casa e escuto ecoar por entre as paredes a reclamação do meu pai sobre ter esquecido de comprar fumo. Me dirijo até a copa e lhe entrego o maço que havia comprado.

Cigarro caro e ruim. Pai do Gabriel.

Parece que não levo mesmo jeito para a coisa. Ao voltar para o quarto, pego o caderno sobre a mesa e releio toda a equação que passei a manhã inteira tentando resolver. Finalmente encontro o erro. Tinha um zero a mais no final. Retiro a borracha do bolso e tento apagar aquilo, mas não funciona. Eu havia escrito à caneta. Essa é uma das coisas de ter virado adulto: a maioria dos erros se torna permanente.

Volto para a cama e me reviro de um lado para o outro. Cigarro caro e ruim, hum. Finalmente pego no sono de verdade, até que, às vinte e três e vinte, sou acordado por uma mensagem dele:

Perdão
Sumi.

Mas já estava sonolento demais para responder. Abraço o travesseiro e penso nele até pegar no sono novamente.