🛌 Eu não quero sair da cama.

Especial de aniversário: Já não sou mais o mesmo.

Ontem, nos vinte e cinco minutos que passei sentado na cadeira do barbeiro, encarei meu reflexo no espelho e dei-me conta de coisas que eu ainda não havia percebido. Já não sou o mesmo de cinco anos atrás. Entre minhas sobrancelhas, estão se formando dois vincos, frutos do estreitamento de quando algo me desagrada. Isso tem ocorrido com mais frequência agora. Abaixo delas, meus olhos estão inchados e bolsas roxas se formaram sob eles, por conta de noites mal dormidas. Mas ainda são meus olhos. Um pouco mais escuros e sem brilho, mas ainda meus olhos. Consegui enxergar através deles e, dentro, organizado em divisões, há fórmulas matemáticas que me permitem calcular o perímetro de uma circunferência por meio de seu raio. Ao lado, há lances de xadrez, seguidos por sentenças em inglês que aos poucos vou esquecendo.

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Um caminhão desce a rua fazendo barulho e me transporta de volta para fora. Sob a capa verde-musgo repleta de fios de cabelo, levo a mão abaixo do peito e encontro o coração entre a 3ª e a 5ª costela. Sinto-o pulsar por alguns minutos e dou-me conta de que ele também não é mais o mesmo. Ele funciona, mas está quebrado. É como o vitral de uma igreja, quebrado por moleques que atiraram pedras na calada da noite.

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Ao chegar em casa, fitei o espelho mais uma vez. Apesar de estar envelhecendo por fora, ainda não me vejo como um homem. Eu pensava que a maturidade viria aos dezoito, mas, quando completei, cheguei à conclusão de que talvez isso só fosse acontecer apenas aos vinte e três. Agora penso que ela só virá aos trinta. Quando se é jovem, as pessoas assumem que você não sabe de nada, e é fácil acreditar nisso. Hoje me questiono sobre como pude saber de tudo aos dezoito, mas não saber de nada aos vinte e três.

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Há algumas semanas, o Thiago me disse em um e-mail que, considerando minha idade, achava impressionante minha bagagem de livros, filmes, etc., e que me achava muito inteligente. Isso me levou a uma crise existencial que durou dias. Percebi que realmente sei sobre muitas coisas, mas não sei nada sobre as coisas que realmente importam, e isso me chateia.

And yet… “I know nothing, Oliver.”
“Well, you seem to know more than anyone else around here.”
“Well, if only you knew how little I know about the things that matter.”
“What ‘things that matter’?”
“You know what things.” André Aciman, Call me By Your Name.

Das muitas coisas das quais tenho medo, desperdiçar minha juventude é a que mais me assusta. Sinto que não estou fazendo nada direito e que as coisas pararam de andar. O que fiz dos meus vinte e dois anos? Decerto trabalhei um pouco, estudei um pouco, machuquei meu coração mais um pouco. Dos vinte e dois, acho que só sobrou a esperança de que os vinte e três, pela primeira vez em cinco anos, seja diferente.