O axioma da igualdade.
Nos últimos dias, permiti-me contemplar a sensação de estar superando todas essas coisas. Então, por masoquismo ou inocência, permito-me ser atingido por ele mais uma vez. E lá estou eu, escorregando pelas paredes do box enquanto a água leva minhas lágrimas pelo ralo. Sinto a urgência de me punir, mas tem gente em casa e não posso socar a cabeça repetidas vezes contra a parede. Desligo a água quente e sinto o frio correr pelas minhas costas, contraindo cada terminação nervosa do meu corpo, e não saio debaixo até que ele trema tanto a ponto de esquentar o sangue e ignorar o frio.
Sento para escrever. Escrevo para ele, apago. Escrevo no diário, apago. Tento no celular, tento no papel, não sai nada. Arrasto o computador para a cama e começo a escrever para o blog:
Mesmo que eu perca, tem algo justo em competir com os meninos. Na vez em que perdi, nunca soube o real motivo, então comecei a supor coisas: apesar de sermos fisicamente parecidos, talvez ele tivesse o cabelo mais enrolado que o meu, a voz mais grossa. Entendesse o jogo de tiro enquanto eu apenas sei jogar xadrez. Que talvez ele morasse um quilômetro ou dois mais perto, ou até no mesmo estado, e que por isso a distância não era um problema. Que talvez ele já estivesse na faculdade, fizesse medicina e falasse alemão, ao passo que estudo para o vestibular e estou preso nas aulinhas de inglês. Talvez ele não lesse Robert Bly, nem escutasse Terno Rei, muito menos Tim Bernardes. Talvez tivesse falado para ele sobre o axioma da igualdade, antes que eu tivesse a oportunidade. Ou talvez, como certa vez ele tentou justificar, apenas tivesse chegado primeiro.

Hanya Yanagihara, A Little Life.
Mas então, perco para uma menina e não tem mais “talvez”. Eu sei que não posso competir com elas. Tem algo nas minissaias xadrez e nos bodys marrons de um ombro só. É algo dentro das bolsas pequenas, nas solas dos saltos. Algo nas bochechas rosadas, na boca brilhante de gloss, no perfume doce. É algo no cabelo cortado logo abaixo dos ombros, caindo em cachos pelas costas enquanto o restante está preso em um rabo bem no topo da cabeça. Não tem competição com a voz fina, com as mãos macias e com a possibilidade de ser frágil e estar tudo bem. Há normalidade em esperar que ele abra a porta do carro, pague a conta no final. É algo nas roupas íntimas de renda, mas que não está nas vermelhas. Apenas nas brancas e nas pretas. É algo em escutar Taylor Swift e isso ser aceitável, porque, afinal, ora, ela é uma menina. Nunca poderei dar nada disso a ele, e isso me deixa mal. Me deixa mal saber que bem ao seu lado tem alguém que pode ser tudo, enquanto me resumo ao nada. Não há uma competição justa, não há igualdade. E o único "talvez" desse parágrafo é que, talvez, não haja sequer competição.
O axioma democrático da igualdade perante a lei só tem sentido no pórtico dos cemitérios. Tobias Barreto.
Não há igualdade nas competições que estou destinado a perder. Seja entre os meninos ou entre as meninas, não há igualdade. E é estranho que eu ainda me permita ser atingido por ele. Me questiono uma, duas vezes se ele sente prazer em me fazer sofrer. Se não por prazer, qual o motivo de me contar certas coisas? É a amizade que resta? Me sinto como uma dessas folhas de papel amassadas pelos cantos do meu quarto. Com estima ele as pega, escreve coisas bonitas, então as amassa e as lança contra a parede. E eu não sei mais quanto tempo vou aguentar isso. Eu preciso deixar ele para trás, tentar fechar a porta. Porque, cara... Eu tô perdendo a vontade de continuar.