Pai, Filho e Espírito nem tão santo assim.
Essa semana, comecei a questionar-me sobre como conseguimos ganhar do Bolsonaro pai, cabeça da extrema direita, mas ficamos atrás do filho no primeiro turno. Cheguei a duas conclusões: a primeira é de que em 2022 a memória da pandemia ainda reverberava na vida das pessoas. Elas ainda sentiam falta dos familiares que perderam e mantinham fresco na memória as situações terríveis pelas quais passamos. O descaso com a ciência, a rejeição da compra de vacinas, promoção de medicamentos ineficazes, falta de oxigênio nos hospitais e uma série de falas absurdas contribuíram para que o bolsonarismo perdesse força.
Mas a memória das pessoas é curta, e como o Lula disse chorando em uma entrevista (procurei para citar mas não encontrei o vídeo): as pessoas estão com tanto ódio que estão cegas. O ódio por ele e pelo PT fizeram o bolsonarismo voltar a crescer, e a culpa disso é do... Lula e do PT. Essa foi minha segunda conclusão. Acredito que as pesquisas de rejeição do governo Lula começaram a ser feitas muito tarde e o estrago já havia sido feito. Gastos no cartão corporativo, primeira-dama sendo fotografada em lojas de grife e o excesso de viagens, polemicas envolvendo ministros do STF, taxa das blusinhas, escândalo de vazamento de questões do Enem sendo ignorado pelo ministro da educação e uma série de outros problemas que o governo falhou miseravelmente em conter, e o resultado, para além das pesquisas de insatisfação, refletiu-se no resultado da votação de primeiro turno.
Registro feito pelo fotógrafo Wilton Junior, do Estadão.
O empate nas pesquisas de intenção de voto, divulgada essa semana, me fez respirar um pouco mais tranquilo. Mas ainda tenho o medo de que possamos perder. Acredito que uma vitória do Flávio não representaria apenas 4 anos de mandato, mas sim uma série de governos de extrema direita que submeteriam o Brasil a 16, 20 anos sob o comando da família Bolsonaro, seja pelas mãos do pai, dos filhos ou das mulheres. E isso me assusta um pouco.
Também tenho o medo latente das propostas do Flávio para a educação. Em 2024, após redução no investimento nas universidades pelo governo Lula, houve uma série de greves. Os grupos pediam recomposição salarial, reestruturação de carreira e melhorias no orçamento das instituições de ensino. Depois disso, o investimento voltou a crescer um pouquinho. E o que me assusta nas propostas do Flávio é tesouraço que ele promete para a educação. Isso significa que ele vai cortar ainda mais as verbas para pesquisa, reduzir o número de vagas nas universidades, extinguir cotas e uma série de outros retrocessos. E isso afetará não apenas as pessoas que já estudam, mas pessoas como eu, que necessitam das cotas para ingressar no ensino superior por meio de programas como SISU, PROUNI e FIES.
Reduzir o número de vagas e acabar com as cotas significa subir a nota de corte a um ponto que será impossível para o estudante de escola pública competir com os estudantes de instituições privadas. Nós percebemos isso no SISU, em que não existem cotas para alunos de escola pública e a nota de corte para o curso de medicina passa dos 800 pontos, favorecendo alunos que cursaram o ensino fundamental e médio em escolas particulares de alto desempenho. Enquanto isso, o Prouni possui um sistema de cotas que permite que os alunos de escola pública, assim como eu, ingressem na faculdade com 730 pontos. Acabar com as cotas e reduzir o número de vagas é tirar dos pobres a chance de cursar o ensino superior.
Essa semana, assistindo a uma live do Lula, me dei conta de quantas pessoas legais estão do lado dele. Uma série de artistas, pessoas que minha avó acompanhava pela TV e artistas que vez ou outra tocam no meu fone. Concordo bastante com a fala do Janones de que os maiores formadores de opinião, cientistas, artistas e educadores estão do nosso lado, e isso faz com que eu sinta que estou do lado certo também. Essas pessoas não estão aqui pelo extremismo da religião, pelo ódio a outros partidos, elas estão aqui porque estudam e reconhecem o quanto a gente sofreu nas mãos de governos de direita. É por isso que o PL odeia tanto a educação: se uma pessoa estuda, ela não caí no papinho fascista deles.
E ouso dizer que não conheço sequer uma pessoa de bom caráter que vote 22. Nisso eu incluo minha família que, apesar de honesta, não entende nada de lutas sociais, flerta com o fascismo, homofobia e opressão. E não há espaço para diálogo, há apenas esperança de que Lula seja eleito o primeiro presidente a perder em primeiro turno que venceu uma eleição desde a redemocratização.
Sinto que demorei bastante para expressar minha opinião aqui no blog, mas isso tudo está me deixando bem nervoso e com muito medo. Amanhã, nós vamos às urnas votar pelo Brasil que a gente quer, não só para a gente, mas para os nossos familiares, amigos e pelos mais pobres. E votar no Lula não significa concordar com tudo que ele faz. Termino esse post com o trecho de uma carta assinada por alguns bispos da igreja católica que tiveram coragem de se manifestar:
Por outro lado, temos outra candidatura que, embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição. Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja. Diante desses e inúmeros outros elementos, não podemos nos manter neutros, a fim de que nossa consciência ou a história não nos condenem no futuro. Quem se calou diante das ameaças totalitárias que se concretizaram na Europa do século XX deixou uma herança vergonhosa para as gerações seguintes. CARTA DE BISPOS CATÓLICOS AO POVO DE DEUS DIANTE DO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2026.